Não posso dizer com precisão se todos eram, mas a maioria esmagadora dos barrados era de pele escura. Algumas mulheres também estavam ali, mas o perfil médio dos impedidos de entrar era jovem e negro, geralmente em grupos de dois a cinco indivíduos.
Voltei ao shopping algum tempo depois. Cheguei todo suado e com o cabelo um tanto desarrumado, devido ao sol e ao vento. Procurei uma entrada em outro lado do shopping, que também tinha uma presença de seguranças acima do normal, mas não tão ostensiva quanto a outra. Perguntei se o shopping estava aberto e o sujeito respondeu educadamente que sim, e ainda indicou qual das portas não estava trancada.
O shopping estava relativamente vazio, e eu estaria mentindo se dissesse que só havia gente de pele clara ali dentro, embora fosse a maioria. Indivíduos de pele mais escura eram geralmente do sexo feminino. Quase todas as lojas estavam fechadas, uns quatro ou cinco restaurantes estavam funcionando (na hora em que eu almocei), mais os cinemas. Perguntei para um dos seguranças do "portão dos barrados" porque faziam aquilo e ele respondeu que "só os cinemas e um restaurante estavam abertos, e o restaurante já estava fechando".
No balcão de informações, perguntei pela administração do local e a moça informou que a mesma só funciona em dias úteis. Com respostas lacônicas dos seguranças e sem condições de ouvir os motivos de quem determinou aquilo, fui na multidão e perguntei para algumas pessoas barradas o que estava acontecendo.
"Disseram que o shopping está fechado, que só entra quem vai no cinema."
Nesse momento, dois indivíduos de pele clara entravam no local sem grandes problemas.
"Isso é discriminação." - Respondeu o mesmo guri.
Insatisfeito com a falta de motivos para o acontecimento fiquei ali e fiz um vídeo com o celular. Só que o mesmo ficou ruim e não coube no anexo quando eu tentei enviar ao PC por e-mail (250KB!!!). Nele dá pra ver bem o padrão das pessoas que não puderam entrar.
Sabendo que um dos portões estava escancarado, convenci uma gurizada que havia sido barrada a tentar entrar nesse outro portão escancarado. Eram quatro guris, que deviam ter cerca de um metro e meio de altura, pele escura, e vestiam roupas típicas de habitantes da periferia. Chegando no destino, passei incólume e sem problemas pelos seguranças. Já estava dentro do shopping quando ouvi um dos guris me chamando: foram barrados novamente. Voltei e ouvi um segurança dizendo que eles só poderiam entrar com pais ou responsáveis. Os guris disseram que estavam comigo e eu confirmei. O segurança inesperadamente perguntou o que eu era deles, e respondi que era conhecido, mas que eles estavam comigo. Não puderam entrar. E eu fiquei com aquela cara de bunda.
Depois que a gurizada foi embora, questionei os seguranças sobre os motivos deles terem de cumprir aquelas ordens:
"É muita gente que está vindo, aí eles atrapalham as famílias que vêm aqui para comprar, passear e se divertir."
"Sim...Mas ontem também tinha muita gente, certamente muito mais."
"É, ontem estava bem movimentado."
"Não dá na mesma?"
"Não, o público de hoje é diferente. É público de passe livre. A gente faz isso por causa de alguns incidentes que aconteceram em dias como hoje."
Resumo da ópera: aquele pessoal honesto, que trabalha, que não faria mal a uma mosca e só tem condições de fazer um passeio para pontos distantes da cidade em dia de passe livre perdeu a viagem, se ferrou. O shopping tem seus motivos para tomar algumas atitudes - os tais "incidentes" - mas a forma como se aborda o problema é absolutamente preconceituosa e perversa, tomando o todo pela parte, julgando pelas aparências. Este é mais um fato que dá margem para a interpretação de que a cidadania só existe para aqueles que consomem (embora os barrados que tivessem um real no bolso também fossem potenciais consumidores, apesar de muito ocasionais - foram tratados como baderneiros, não como potenciais consumidores).
Aposto um pirulito que isso não vai sair nos jornais.







