Estava eu esfuziante quando a galera chegou em Roma. Algum tempo na cidade eterna faria bem para mim, principalmente depois da enfadonha missão na Sardenha. Enfadonha, porém útil, já que foi o suficiente para conseguir dispensa da marinha. Estava tão louco para pisar em terra firme que acabei esquecendo minhas coisas na embarcação. No dia seguinte, quando dei pela falta do meu punhal, voltei para o porto a fim de buscar meus pertences, mas a galera já tinha partido em busca de batalhas em mares distantes.
Destarte, tudo o que restava de meu passado militar era uma espada, que vendi para um mercador judeu. Com o dinheiro, comprei material para pintura, e montei um ateliê em minha casa. Estava pronto para fazer o que mais gostava na vida: retratar pessoas e paisagens com tinta, arte muito em voga neste meu tempo.
Passei boa parte da mocidade estudando técnicas de pintura, parei durante o exército, e resolvi estudar mais um pouco, já que diziam existir grandes inovações na área. Passados alguns meses de estudo, tendo sobrevivido com as escassas economias que juntei do soldo da marinha, resolvi procurar um mecenas. Sonhava não apenas em ser um grande pintor, mas ser um grande pintor famoso, bajulado, rico e de grande popularidade. Para isto, precisava de um mecenas com estas características.
Em Roma existia o papa. Depois de muito penar e muitos clérigos subornar, consegui uma audiência com o sumo pontífice. Levei alguns quadros para mostrar meu estilo, e o mesmo ficou impressionado com o realismo das minhas obras. Estava empregado. Comecei fazendo um quadro retratando Moisés no moisés, flutuando no Nilo. Uma bela obra, mas que poderia ficar melhor se a sua santidade gagá não ficasse dando palpite. Depois, fiz uma bela seqüência de quadros dos patriarcas hebreus, mas o velho não gostou do fato deles terem sido retratados morenos e com nariz aquilino. Ele queria hebreus branquelos e com cara de italianos.
Tal chatice já estava me torrando a paciência. Fiquei fulo quando soube que o papa insistiu para servir de modelo num quadro em que eu retrataria Adão. Aquele velho parecia tomado por um arroubo narcisista, insistindo até para que eu eliminasse suas rugas e o retratasse mais musculoso. Melhor que fizesse sem modelo, então. Como forma de tornar meu calvário um pouco prazeroso, resolvi sacanear o velho e atrofiei o pênis papal. Pobre Adão.
Entretanto, sua santidade acabou percebendo que o seu bilau encolhera consideravelmente no quadro, o que acabou causando minha demissão. Fui salvo da Inquisição por um astrônomo amigo meu. Este recomendou ao papa que me comprasse lentes de correção para os olhos, alegando que eu estava míope. Na verdade eu estava mesmo, mas não a ponto de distorcer o tamanho do santo dote.
Pronto. Agora estava eu demitido e com a reputação manchada pelo desentendimento com o sumo pontífice. Resolvi deslocar-me para Gênova, já que Florença estava saturada de pintores e Veneza estava sendo governada por um doge homossexual. Não queria correr o risco de trabalhar para um aristocrata pederasta e parar na Inquisição acusado de fomentar o homossexualismo. Afinal, meus antecedentes já não eram dos melhores, e certamente eu estava sendo vigiado por algum coroinha-espião.
Chegando ao meu destino, encontrei uma cidade tomada por um bizarro narcisismo em forma de óleo sobre tela, mais precisamente da parte das aristocratas que não tinham mais o que fazer. Basicamente, todos os pintores locais trabalhavam para mulheres da alta sociedade. Elas os pagavam para pintar retratos seus todos os dias ou quase, e deixavam as telas expostas em pequenos altares na frente de suas mansões e castelos, com pequenos textos acompanhando. No começo, amigos e conhecidos mandavam mensagens dizendo o que tinham achado do quadro e da retratada, mas o negócio começou a ficar tão constante e os retratos começaram a ficar tão repetitivos que eles encheram o saco de mandar mensagens. A reação das damas normalmente era mandar mensagens perguntando por que os amigos e conhecidos perderam o hábito, e contentavam-se com respostas evasivas como "Estou preocupado com os turcos. Eles estão ameaçando a cristandade." Ao mesmo tempo, as aristocratas mais narcisistas começavam a achar que ninguém mais gostava delas, ou que as achavam feias, e começavam a dar festas e recepções sem motivo, sempre bem freqüentadas, o que elevava o ego dessas damas. Mas chegou um momento em que os amigos e conhecidos começaram a cansar de ir a festas e mais festas - quase todo dia tinha uma - e as aristocratas desocupadas-narcisistas entraram em pânico.
Começaram a tirar o couro dos pintores, que retratavam as damas sentadas olhando pra esquerda, sentadas olhando para a direita, de pé sorrindo, de pé sorrindo um pouco mais e de outras formas parecidas. Os altares geralmente tinham uma foto nova quase todos os dias. Mas as avaliações dos mesmos continuavam escassas, então, as damas começavam a mandar mensagens diárias para amigos, conhecidos e até desconhecidos, pedindo coisas do tipo "gostaria da sua opinião sobre o meu retrato exposto no altar em frente a minha mansão." A insistência costumava ser tamanha, que se generalizaram as mensagens do tipo "Olá, só passando", "Como você está bonita", "Belo quadro" ou a famigerada "Oi, visite o altar em meu castelo." O número de cartas recebidas diariamente virou uma espécie de competição entre as moças e senhoras: quem recebia mais passou a ser considerada mais bela ou popular. E não importava o conteúdo, mas a quantidade de correspondências.
Exemplifico a maluquice que isto se tornou com dois exemplos. O primeiro é uma dama não muito bonita e de baixa auto-estima, que usava seu altar para tentar confortar seu ego. Não tinha muito sucesso neste expediente, visto que sempre recebia poucas mensagens. Parou por algum tempo e recomeçou novamente, depois de fazer alguma propaganda dos seus retratos, onde aparecia sempre retratada do mesmo ângulo, com a mesma cara e sorrisinho pidão. Contentava-se com qualquer mensagem que aparecesse, mas, como sempre eram poucas, passou a trocar os quadros do altar em intervalos cada vez maiores.
Já o outro exemplo é uma belíssima senhorita, parente distante da Srta. Vespúcio - que posou para o mestre Botticelli como Vênus - e parecida fisicamente com a prima. Herdeira de uma viúva riquíssima e muito popular nas festas locais, era cortejada por todos os cavalheiros da cidade. Ao mesmo tempo, por causa da abundância de luxo e riqueza em sua vida, a mesma era tomada por um vazio de significado, e seu altar era sua única atividade. Expunha quadros com retratos seus todos os dias, contava a sua vazia vida ali, como se aquilo fosse um diário público, e recebia sempre uma avalanche de cartas. Fui contratado para ser o seu pintor depois que o antigo, um velho, morreu de um mal súbito enquanto fazia um nu da moça.
Foi ali que eu garanti meu bem estar pelo resto da minha vida. Não, quem dera ter casado com a bela moça, mas ela pagava bem e eu passava a pão e água para fermentar minhas economias. Trabalhei duro, mas ganhando como nunca por quadro pintado, e pintava retratos dela todos os dias. Até que algo aconteceu.
O castelo onde moravam a viúva e a bela moça ficava numa colina meio que acima do resto da cidade. Certa noite, um temporal com raios, trovões e relâmpagos em abundância acabou por bloquear a rua que ligava a cidade ao castelo. Várias árvores caídas impediram o trânsito ali por dias. Quando a bela acordou, o pior já havia passado. Pela manhã, como de costume, pintei um retrato da moça que foi exposto no altar. Como ainda estava chovendo, a moça recolheu-se ao seu quarto e ficou esperando as cartas, que obviamente não vieram. Tomada por um desespero narcisista, ela enforcou-se com um lençol, ficando pendurada pela janela, de costas para a cidade.
Como não tinha mais o que fazer naquele lar, fui dispensado pela viúva. Recusei-me a fazer este tipo de serviço, que dava dinheiro, mas que levou uma jovem beldade ao suicídio. Mudei-me para Nápoles, onde comprei um barco de pesca e conheci a mulher que me acompanhou pelo resto dos meus dias. Continuei pintando, mas menti para minha esposa, dizendo que não sabia fazer retratos, apenas paisagens.
Terça-feira, Setembro 06, 2005
O Pintor
Postado por
Arthur
às
00:23
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