Crasso era seu nome. Crasso perdeu a noção das coisas. Crasso era um estúpido total. Crasso era um romano, parente de um general famoso. Estava a viver na Beócia, região estreita, que já foi um importante elo de ligação, mas no momento era só um enclave distante. Era uma espécie de Alabama do Império, digo, República.
Ele, com suas feições romanas e uma barba não-romana, estava refugiado numa montanha beócia. Deixou a barba ficar não-romana justamente pelo isolamento, já que onde morava não havia barbeiro. Refugiou-se da própria vida, após perder a noção das coisas. Crasso era um louco, um doido varrido, que julgava ser o centro do Roma. Tentou passar-se por seu primo distante, mas sua barba, então romana, o denunciou. Erro primário. Achou que César não iria perceber a mudança repentina. Crasso cometera um erro crasso.
Crasso então fugiu. África do Norte, ou como preferem chamar nos tempos de então, Numídia. Não tinha muito que fazer por lá, então resolveu procurar a nascente do Nilo, que diziam estar logo ao sul de Cartago. Toscamente, quase morreu de sede, só não caiu duro porque teve a sorte de ser assaltado por um bando de beduínos, que lhe roubaram as roupas e forneceram alguns goles d'água.
Então, Crasso teve a maravilhosa, brilhante, genial e soberba idéia de pegar um barco e subir o rio. Pobrezinho. Desistiu na primeira catarata. Vendo que nada em sua vida dava certo, Crasso resolveu apostar no amor. Abriu uma casa de apostas em Alexandria, onde se apostava qual o novo romance dos ricos e famosos. Enriqueceu ao acertar que Cleópatra e Marco Antônio juntariam os trapinhos.
Crasso, agora endinheirado, mudou-se para Atenas. Percebe-se que ele está chegando perto da Beócia agora, o que leva a crer que a história está acabando. Porém, ele foi raptado por um disco voador que fez várias experiências psicodélicas com ele e o largou na China, mais precisamente na capital, EXATAMENTE NO TRONO VAGO DO IMPERADOR. Tido como usurpador, Crasso foi "fuzilado" com flechadas. Morto, foi jogado numa vala no outro lado da Muralha da China. Entretanto, as experiências psicodélicas do disco voador começaram a surtir efeito: ele ressuscitou.
Assim que a ressurreição foi completa, ele começou a caminhar sem rumo, até que chegou num vilarejo Huno. Depois de contar sua triste história chinesa, foi ridicularizado pelos Hunos, que, de tanta pena, deram um cavalo a Crasso. Foi-lhe dito que, se cavalgasse a sudoeste, encontraria a felicidade.
Descrente depois de tudo o que lhe aconteceu, Crasso só cavalgou a sudoeste porque era a única rota que não passava no meio do Deserto de Gobi. Chegando a um vilarejo, bateu na porta de uma casa para pedir comida e foi recebido com grande hospitalidade. Convidaram-no para dormir por ali, descansar por alguns dias. Crasso estranhou tamanha hospitalidade em uma casa bárbara da Ásia Central, porém estava cansado e já tinha passado por tantos apuros que resolveu arriscar.
No dia seguinte, o dono da casa saiu para a guerra, como era comum naquela região. O Imperialismo chinês estava a todo vapor e as escaramuças eram constantes. Ficaram Crasso e a esposa do bravo guerreiro sozinhos num casarão enooorme (para os padrões da Ásia Central no século I a.C.). Até aí tudo bem, ela era uma mulher gente boa e tal. Mas, um dia, um dia chuvoso, Crasso acordou com ela ao seu lado, e um garrafão de vinho de outro. Quis fugir, amedrontado por ter feito coisas legais com a mulher do bravo, e agora corno, guerreiro.
Sim, como bom romano que era, Crassinho, como era chamado pela oriental, não negou fogo em uma noite de sexo e álcool. Ela não entendia o pânico do romano, já que isto era um costume naquela terra intermediária entre as duas potências da época. Os viajantes tinham o direito de deitar com as mulheres das casas onde estavam hospedados. Ao entender tal fato, Crasso voltou a fazer coisas legais com a oriental.
O que era apenas um costume pitoresco acabou descambando numa ardente paixão. Agora sim Crasso ficou amedrontado, e tratou de pular fora. Com a oriental a tiracolo, claro. Ele já havia amado várias mulheres, mas nunca uma mulher o amou. Dividiram o cavalo admirando paisagens das mais diversas. Passaram frio nas montanhas do Karakorum, adoeceram juntos de uma enfermidade tropical no vale do Indo, quase morreram de fome e insolação ao repetir o feito de Alexandre, o Grande, atravessando o deserto da Gedrósia. Foram assaltados juntos na Mesopotâmia, e ajudados por um bom homem já nas fronteiras do Império, digo, República, na Samaria.
Eis que finalmente chegam a Paris, digo, Atenas. Ao chegar, Crasso percebe que seus escravos o ludibriaram, gastando toda a sua fortuna, e trocando sua mansão por uma casinha chinfrim no Pireu. "Malditos ETs psicodélicos que salvaram a minha vida no oriente", pensou Crasso. Mesmo decepcionada por não mais ser a mulher de um homem rico, a oriental continuou ao seu lado, pois o amava verdadeiramente.
Recomeçaram então, ou melhor, começaram a vidinha de casal no Pireu. Sexo aqui, brigas lá, apertos financeiros cá, rotina acolá, e o que foi iu. Certo dia o tédio era tanto que o estúpido Crasso colocou a mulher amarrada no cavalo e soltou o animal pra ver até onde ele ia.
Rumores dão conta de que os dois foram parar na Gália, nossos correspondentes druidas não conseguiram apurar o que aconteceu com a oriental.
Foi então que Crasso recolheu-se à Beócia. Virou um cidadão romano ermitão numa montanha grega, demonstrando que já se vivia a globalização naqueles tempos. Viu que nada fez de prestável em toda sua vida, e quando tentou fazer não deu certo: César descobriu. A única mulher que o amou foi obrigada a conhecer a Gália. Crasso achou melhor se isolar do mundo para não atrapalhar a vida alheia. Pode existir situação mais triste que essa? Crasso cometera um erro crasso.
Terça-feira, Junho 28, 2005
Conto do trocadilho infame
Postado por
Arthur
às
04:00
Marcadores: Literatura
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8 mensagens:
Crasso foi foda, sem ele o primeiro triunvirato teria sido tão sem graça...
afude o textinho. o cara pelo menos reconheceu q era um perdedor e se retirou. heauaheuaheuhea
bjs ae
Quem são os beduínos?
Beduínos são alguns dos nômades do deserto. Habitam o Saara e a península Arábica.
e os babuinos? uhahuahuahuuah
te empolgou lendo o atlas histórico??? huauhauhahuahu
tem um cara na minha sala do colégio que se chama Balduíno.
Legal, não?
Foi eu que postei antes.
Ãn, pra completa o post anterior, queria dizer que ele não tem cara de macaco.
"Descrente depois de tudo o que lhe aconteceu, Crasso só cavalgou a sudoeste porque era a única rota que não passava no meio do Deserto de Gobi."
Hahaha Sorín, essa parte é a melhor!
Beijoss
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